Ética de cuidado – ética de complementaridade em tempo de COVID-19

Carlos Costa Gomes

1. O ato de cuidar, mesmo em tempo de pandemia COVID-19, é um ato intrinsecamente humano. Segundo Daniel Serrão, os profissionais de saúde que cultivam as virtudes da arte de cuidar as pessoas doentes no seu corpo e no seu espírito, ajudam as pessoas a reestabelecer, quando possível a sua saúde. Esta ajuda deve ser vista como um serviço, que é ato de servir o outro, e não como um exercício de poder sobre os que têm poder perante os fragilizados.

2. O fundamento deste servir é rigorosamente ético e acontece no interior do universo ético da pessoa, em três níveis: primeiro como ética individual – serve quem decide por valores pessoais de beneficência, da responsabilidade e solidariedade; depois por valores de ética dialogal – servir respeita a autonomia e a dignidade do outro; e decide também por uma ética dos valores sociais – servir o outro, o vulnerável, é satisfazer a sua necessidade da sua realização enquanto pessoa.

3. Quando se serve um outro, na sua necessidade corporal ou espiritual, é reestabelecer e harmonizar a totalidade da sua vida. Mas quando este serviço é realizado sem o tempero da ética e sem a delicadeza do amor, significa que servir sem ética é humilhar a pessoa e servir sem amor é ofender a sua dignidade mais profunda. Por isso, em cuidados de saúde a Ética é a medida da qualidade do servir e o amor/amizade pela pessoa doente é encher essa medida com valor sem medida.

4. O cuidado é essencial do ser humano e falar da pessoa sem falar do cuidado não é falar da pessoa. O dativo ético do cuidado informa-nos que não devemos apenas personalizar o cuidado, mas acima tudo o cuidado deve ser pessoalizado no outro a quem se presta cuidado. A pessoa doente que se apresenta como um rosto vulnerável, que procura a recuperação da sua saúde através do cuidado do profissional de saúde que, muitas vezes, se exprime por solicitude como movimento de si mesmo pelo outro; um movimento total que exige total disponibilidade que só se completa na relação de amizade com as virtudes éticas, na medida em que estima a pessoa doente que procura a restabelecer a sua saúde, como a si mesmo.

5. A todo tempo e a todo momento o profissional de saúde é chamado a cultivar-se cientificamente e tecnicamente, mas também a cultivar as virtudes éticas como medida da qualidade do serviço e o amor como um vaso cheio dessa medida. Em tempo de crise provocada pelo COVID-19, ainda se torna mais necessário e urgente o cultivo desta complementaridade: a competência profissional como qualidade técnica e científica e a ética como qualidade do serviço que se presta no ato de cuidar.

6. A grande “utopia”, que não se confunde com a fantasia, da ética de complementaridade, que alia o conhecimento científico e as competências éticas, aplicada com a profundidade do espírito humano dos profissionais de saúde aos cuidados de saúde é um lugar além do lugar, que traz em si uma disposição natural para procurar o vínculo humano e dele fazer o que se deve realizar técnica e cientificamente, e dele extrair laços de afetividade e receitas de humanidade para com as pessoas doentes, mesmo em situação de pandemia.

Via: Comissão Diocesana da Cultura de Aveiro

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